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Nem toda exaustão é excesso de trabalho: quando a perda de sentido adoece

Danielle Ribeiro
Psicóloga | HR Business Partner | Cultura Organizacional, Performance e Saúde Mental | RH Estratégico

Vivemos uma época curiosa.

Nunca tivemos tantas formas de nos conectar.

Conversamos instantaneamente com pessoas em qualquer lugar do mundo. Participamos de reuniões sem sair de casa. Compartilhamos opiniões, imagens e experiências em tempo real.

Ainda assim, pesquisas realizadas nos últimos anos apontam um crescimento consistente da solidão, do isolamento social e da sensação de desconexão humana.

Algo parece estar mudando na forma como nos relacionamos.

E talvez ainda estejamos subestimando os impactos dessa transformação sobre nossa saúde mental.

Quando falamos sobre adoecimento no trabalho, costumamos direcionar o olhar para fatores como excesso de demandas, pressão por resultados, jornadas extensas ou ambientes tóxicos.

Esses fatores são reais e continuam exigindo atenção.

Mas talvez exista uma pergunta igualmente importante que estamos deixando de fazer:

E se parte da exaustão que observamos hoje não estiver relacionada apenas à quantidade de trabalho, mas à qualidade das conexões humanas que estamos construindo?

Nem toda pessoa emocionalmente esgotada está trabalhando demais.

Algumas estão apenas vivendo uma rotina cada vez mais desconectada de significado.

E isso não acontece apenas dentro das organizações.

Acontece na sociedade.

Nas relações pessoais.

Nas comunidades.

Nas famílias.

O trabalho apenas reflete, em alguma medida, aquilo que estamos vivenciando como cultura.

Afinal, líderes, gestores, RH’s e colaboradores não vivem em universos paralelos.

Todos estamos inseridos no mesmo contexto social.

Todos somos atravessados pelas mesmas transformações culturais.

Todos nós chegamos ao ambiente de trabalho carregando as marcas de um tempo que parece cada vez mais acelerado, fragmentado e individualizado.

Talvez por isso tantas pessoas relatem uma sensação difícil de explicar.

Elas continuam produzindo.

Continuam entregando resultados.

Continuam ocupando seus cargos.

Mas algo parece faltar.

Não necessariamente porque perderam a capacidade de trabalhar.

Mas porque perderam, em alguma medida, a conexão com aquilo que dá significado ao trabalho.

A psicologia tem demonstrado que o sentido é um dos elementos centrais para o bem-estar humano.

Pessoas precisam perceber que fazem parte de algo maior do que a simples execução de tarefas.

Precisam sentir que contribuem.

Que pertencem.

Que são vistas.

Que suas relações possuem profundidade e autenticidade.

Quando essa experiência enfraquece, o trabalho pode continuar funcionando operacionalmente.

Mas deixa de alimentar aspectos fundamentais da experiência humana.

É nesse ponto que a discussão sobre cultura organizacional ganha relevância.

Frequentemente falamos sobre cultura como um conjunto de valores, políticas ou práticas corporativas.

Mas cultura é, antes de tudo, um fenômeno humano.

Ela é construída diariamente na forma como as pessoas se relacionam.

Nas conversas difíceis que escolhemos enfrentar ou evitar.

Na maneira como lidamos com divergências.

Na capacidade de escutar.

No espaço que criamos para o reconhecimento.

No respeito que demonstramos pelas diferentes experiências humanas.

Nenhuma cultura se sustenta apenas por discursos.

Ela se materializa nas relações.

E quando as relações se tornam excessivamente transacionais, a cultura também se torna.

As pessoas passam a ser percebidas apenas por suas entregas.

As interações tornam-se mais superficiais.

O pertencimento enfraquece.

O significado se perde.

Talvez seja por isso que a discussão sobre saúde mental não possa ser reduzida apenas à prevenção do adoecimento.

Precisamos falar também sobre conexão.

Sobre comunidade.

Sobre pertencimento.

Sobre a capacidade de construir ambientes onde as pessoas possam continuar sendo humanas.

Falamos muito sobre inteligência artificial, automação e produtividade quando discutimos o futuro do trabalho.

Mas talvez uma das transformações mais urgentes não esteja na tecnologia.

Talvez esteja na reconstrução dos vínculos humanos.

Porque o futuro do trabalho não será construído apenas pelas ferramentas que desenvolvermos.

Será construído pela forma como escolheremos nos relacionar uns com os outros.

E talvez uma das perguntas mais importantes para organizações, líderes e profissionais seja esta:

Se a desconexão humana é uma das marcas do nosso tempo, como podemos construir relações mais significativas dentro do trabalho?

Porque pessoas não encontram sentido apenas no que fazem.

Encontram sentido, sobretudo, nas conexões que constroem enquanto fazem.

E quando essas conexões enfraquecem, a exaustão pode surgir mesmo quando o excesso de trabalho não está presente.

FONTE: https://www.linkedin.com/pulse/nem-toda-exaust%C3%A3o-%C3%A9-excesso-de-trabalho-quando-perda-sentido-ribeiro-rrruf/

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